A Cultura Kalunga

Nossas festas são nossa marca registrada. É assim que demonstramos nossa cultura e religiosidade e, por isso, são muito importantes para conhecer o nosso povo. Do início aos dias de hoje, é nas festas que sentimos de verdade o que é ser kalunga e que fazemos parte de uma comunidade, de um povo que tem uma história e uma identidade.

São festas de Romarias, com ladainhas, folias, sussa e forró, cheias de belas coreografias, boa música, comidas locais e atraem centenas de visitantes. Mais do que comemoração religiosa, nossas festas têm um papel social. Quando nos reunimos, mostramos mais nossa alegria e o valor de preservar nossas tradições. É o momento em que encontramos nossa família e amigos que vivem mais distantes. Confraternizamos, conhecemos pessoas novas, celebramos casamentos e batizados, nossas reivindicações são ouvidas por representantes políticos, e também fazemos negócios.

Nós kalungas somos católicos, porém com práticas específicas e distintas das da igreja. Nosso povo possui um vasto calendário de festas, realizadas em todas as localidades kalunga, em diversas épocas do ano: Festa de São João, Nossa Senhora das Neves, Nossa Senhora D´Abadia, Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião, Folia de Reis, Folia do Divino Espírito Santo e São Gonçalo, entre outras.

Nossas raízes

No tempo da escravidão, a população em geral enfeitava os arraias e as vilas para celebrar acontecimentos especiais. Havia festa para tudo, tanto para homenagear os reis de Portugal que governavam o Brasil, quanto para celebrar Jesus Cristo, a Virgem Maria e todos os santos de devoção do povo. Comemorava o Natal, a Semana Santa, as grandes festas do Divino Espírito Santo, a subida de Nossa Senhora aos céus, na Assunção, entre outras celebrações vindas da Igreja Católica.

Tudo era motivo para festejar. Essas festas eram um misto de religião e diversão, assim como são mantidas até hoje por nosso povo Kalunga. Nelas, tanto o toque contagiante dos tambores ou as danças, quanto os batuques, sempre foram vistos por nós como formas de devoção.

Com o tempo, essas celebrações deixaram de ter tanta importância para a nobreza e as pessoas poderosas, mas continuaram a ser realizadas pelo povo. Então, como passou a haver menos festas, elas começaram acontecer somente em algumas ocasiões. Juntavam-se várias festas ou partes de umas com partes de outras, para o povo aproveitar e mostrar sua devoção aos santos. Assim foram sendo renovadas tradições antigas e foram sendo criadas novas tradições, conforme essas festas eram apropriadas pelo povo, sem muito controle da Igreja.

Foram essas festas populares que vieram para o território Kalunga, junto com nossos descendentes. Elas vinham de vários lugares e iam se misturando com a cultura africana trazidas pelos escravos. Por isso é que varia de lugar para lugar o número das festas, a sua importância e a época em que são realizadas.

Porém, algumas festas acontecem em quase todas as áreas. A festa de Reis, por exemplo, ocorre em janeiro na Contenda, no Vão de Almas, no Vão do Moleque e no Ribeirão dos Bois.