Como nosso povo se formou?

Há quase quatro séculos, o interior do Brasil começou a ser colonizado, principalmente por causa da descoberta de minas de ouro nos estados de Minas Gerais e Goiás. Para esse trabalho, foram capturados índios, nativos das terras ainda não exploradas, e escravos negros trazidos da África. A vida era difícil, o trabalho era pesado e os castigos eram muitos. Por isso, esses escravos se organizavam e fugiam em busca de liberdade, indo cada vez mais longe e desbravando a mata ao redor das jazidas na região dos vales da Chapada dos Veadeiros.

A coragem e o desejo de liberdade eram tão grandes, que nossos quilombos foram surgindo em uma terra de difícil acesso, entre serras e vales que circundavam o Rio Paraná, local onde dificilmente nossos antepassados seriam recapturados. Esse povo cada vez mais afastado deu origem aos kalungas.

Como sobrevivemos durante os anos?

Os primeiros quilombolas tiveram que aprender a sobreviver na região da Chapada para poderem continuar livres. Essa adaptação deu origem à cultura de envolvimento e preservação da natureza que temos hoje. No tempo antigo, éramos nós que dependíamos da natureza para sobreviver. Hoje, é a natureza que também passou a depender do povo Kalunga para sua preservação, porque é aqui que se conservam diversas espécies de animais ameaçados de extinção.

Nossos antepassados aprenderam a conhecer o ambiente ao seu redor e distinguir no meio do mato o que serviria ou não para o seu sustento. Para garantir o alimento, passaram a observar e a reconhecer o tempo das chuvas e os sinais da seca. Tudo isso era necessário para saber regular o plantio das roças, por exemplo. Aprenderam a caçar para quando faltasse a carne do gado que eles mantinham nos pastos e das galinhas criadas na beira da casa.

É claro que muitas dessas coisas eles já sabiam. Porque era isso o que tinham feito a vida toda, na roça, na mina ou na cidade. Mas a diferença é que agora, em vez de trabalhar como escravos, podiam fazer tudo isso para si mesmos, para manter sua própria vida.

A caça praticada pelos kalungas nunca foi predatória, sem por em perigo nenhuma espécie animal. Não havia separação nem proprietários das terras, e retiravam dali praticamente tudo o que era necessário para garantir seu sustento e de sua família, assim como fazemos atualmente. Vivemos até hoje da agricultura familiar, fazendo “roça de toco”, forma de manejo agrícola que achamos para preservar o meio ambiente.

Como foram estruturadas nossa cultura e sociedade?

Alguns fatores diferenciam o processo de formação de nós, os kalungas, dos outros quilombos brasileiros. A começar pela distância mantida pelos nossos ancestrais, ao longo dos anos, da sociedade que nos rodeia. Até poucos anos atrás, muitos de nós, quando viam “gente de fora” se escondiam e pensavam ainda que fossem pessoas em busca de escravos.

Nossa história foi sendo passada de geração em geração, por nossos ancestrais, nos relatos que contavam durante os anos. Da mesma forma que acontecia na África, nosso povo sempre seguiu a tradição do respeito e valorização da sabedoria e experiência das pessoas mais velhas da comunidade.

A divisão das terras era simbólica. Cada um tinha um espaço definido, com liberdade para ir onde quisesse, usar as águas, caçar e pescar, por exemplo. Deste modo, cada núcleo de famílias podia manter sua própria vida, de maneira independente, mas sem perder os laços com os parentes mais distantes. Assim foi criada a organização das nossas comunidades.

Hoje existem mais de 60 comunidades, sendo as seis principais: Contenda, Kalunga, Vão das Almas, Vão do Moleque, Ribeirão dos Bois e Engenho II, subdivididos em quase uma centena de agrupamentos: Contenda, Barra, Riachão, Sucuriú, Curral de Taboca, Saco Grande, Tinguizal, Boa Sorte, Bom Jardim, Areia, etc.

Quando descobrimos o mundo ao nosso redor?

Formado há mais de 300 anos, nosso povo só entrou em contato com o homem branco há aproximadamente 30 anos. Até então, nem sabíamos que já havia acabado a escravidão no país, desconhecíamos o dinheiro e fazíamos escambo.

Foi em 1982, quando um grupo de antropólogos chamou atenção para a construção de uma usina hidrelétrica no Rio Paranã, que iria desabrigar centenas de famílias do povo Kalunga, que o resto do país passou a nos conhecer, e nós a ele. O projeto da hidrelétrica foi cancelado.

O que mudou desde então?

O território do Sítio Histórico e Patrimônio Cultura Kalunga, que compreende todas as comunidades kalungas de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre, foi titulado em 2000 pela Fundação Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura. Em 2003, a competência para regularização dessa área foi transferida para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Em 20 de novembro de 2009, Dia da Consciência Negra, tivemos nosso território reconhecido por um decreto presidencial. Cabe agora à nós, da Associação Quilombo Kalunga (AQK), a responsabilidade de gerir as terras e promover desenvolvimento e cidadania para os Kalungas.

Fontes pesquisadas: Leonardo Boloni (Fontes diversas) e Uma história do Povo Kalunga. Secretaria de Educação Fundamental. MEC. 2001.