Projetos

Georreferenciamento

Antes do georreferenciamento de dados físicos e socioeconômicos do SHPCK ocorria um grande vazio de dados e informações geográficas sobre o território.

O processo de Georreferenciamento está concluído. Faltam apenas algumas entrevistas cujos residentes não foram encontrados na ocasião dos levantamentos de campo e agora apesar da pandemia estamos concluindo algumas visitas.

Antes do georreferenciamento de dados físicos e socioeconômicos do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga ocorria um grande vazio de dados e informações geográficas sobre o território. Agora a comunidade está preparada para responder às principais questões acerca das características socioeconômicas, das potencialidades paisagísticas e dos recursos naturais do Território Kalunga. Hoje é possível saber sobre a distribuição de cada núcleo familiar, bem como as características socioeconômicas de cada um e, por consequência, das comunidades; saber sobre o estado de preservação dos recursos hídricos; sobre a distribuição espacial e temporal das chuvas; sobre a aptidão agrícola das terras, bem como outras informações da área do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga.

Outro fator importante foi o levantamentos dos atrativos turísticos em todo o território. Antes do georreferenciamento eram conhecidos cerca de três atrativos turísticos. Agora eles são 69, o que representa um substancial aumento no número de pontos turísticos a serem visitados. Todos esses atrativos estão localizados e caracterizados em termos de acesso. Para tanto, toda a malha viária foi mapeada e caracterizada, permitindo que os guias possam apresentar e explicar melhor acerca das condições de tráfego na região

O Sistema de Informações Geográficas está pronto e utilizando a plataforma ArcGis que oferece grande avanço em visualizações, análises, processamento de imagens, gerenciamento e integração com o banco de dados físicos e socioeconômicos na plataforma MySQL.

De 879 nascentes, em sua maioria preservadas. A hidrografia foi toda levantada, bem como as áreas de preservação permanente, como se pode ver nos dois mapas abaixo.

Ao lado disto  Associação Quilombo Kalunga avançou no processo de organização, elaborou o Regimento Interno, fez as mudanças no Estatuto e elegeu o Conselho de Representantes das comunidades para junto com a Diretoria iniciar um processo de gestão ambiental e territorial. Veio a Pandemia mas mesmo assim os representantes estão engajando no processo de gestão, ajudando a solucionar conflitos internos e uma boa parte já tem em seus Smartphones os dados básicos do SIG, tipo mapa das fazendas, estradas, famílias georreferenciadas e outras coisas a mais. O ruim da pandemia foi não permitir um treinamento dos representantes juntamente com suas comunidades sobre o uso destas ferramentas.

Passada a pandemia, as próximas medidas dizem respeito à realização de reuniões com o maior número possível de membros das comunidades com os seus representantes, a fim de planejar a gestão territorial utilizando para tanto o Sistema de Informações Geográficas. Esse processo de gestão contará com monitoramento ambiental por meio de imagens de satélites para evitar queimadas e retirada indiscriminada da vegetação, monitoramento das áreas de Preservação Permanente e preparação dos locais de visitação turística, cujo número tende a aumentar substancialmente e, principalmente, depois que foram realizados os cursos de formação de condutores de visitantes em todas as regiões do SHPCK.

Sim. Desde o início do projeto vários roteiros turísticos já foram definidos e divulgados na internet. Vários pontos de visitação também já foram preparados para receber os turistas com segurança. Ressalta-se também que já foram duas etapas de cursos de formação de guias turísticos, sendo que uma terceira está em processo de elaboração.

O primeiro importante passo do trabalho foi saber a localização das famílias nas comunidades e sua relação com os demais núcleos familiares do Sítio Histórico. Em seguida, por meio das respostas do questionário socioeconômico, saber sobre as necessidades de cada uma delas. Dessa forma, por meio da distribuição espacial de cada núcleo familiar e suas características, o projeto vai contribuir com a formulação de políticas públicas que possam melhorar a condição socioeconômica de cada residência, e por consequência das comunidades. O trabalho também evidenciou a grande vocação da região para o turismo associado à preservação ambiental. O Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga é uma das áreas mais preservadas do bioma Cerrado. Essa característica associada à existência de 69 locais para visitação representa um grande salto na geração e distribuição de renda nas comunidades.

Mapa de solos do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga a metodologia para a identificação, mapeamento e avaliação dos tipos de solo do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga consistiu em três etapas ou fases. Tais etapas envolveram desde revisão bibliográfica e cartográfica, acerca dos levantamentos realizados até então e que contemplavam a região, passando por procedimentos de refinamento cartográfico e culminando com novos levantamentos de campo.

A área do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga é marcada pela presença de solos jovens ou pouco desenvolvidos. A presença constante de relevos movimentados marcados pelo elevado gradiente altimétrico e, por consequência, elevadas declividades implica no predomínio de solos tais como Neossolo Litólico, Cambissolo Háplico, bem como Afloramentos de Rocha. As outras classes de solos, que se mostram mais desenvolvidos, compreendem Argissolo Vermelho, Plintossolo Háplico e, em pequenas manchas, Latossolo Vermelho, conforme pode ser observado no mapa a seguir.

Aptidão agrícola das terras do sítio histórico e patrimônio cultural kalunga

1. Introdução

O levantamento e a dos atributos do meio físico constituem-se em um procedimento de alta relevância quando se pretende saber acerca das potencialidades e limitações do uso do solo. Este compreende um recurso do meio físico de fundamental importância, uma vez que formado naturalmente é nele que as sociedades edificam suas moradias e retiram seus alimentos.

O Sistema de Avaliação da Aptidão Agrícola das Terras (RAMALHO FILHO et al., 1978; RAMALHO FILHO; BEEK, 1995) consiste em uma proposta de interpretação das potencialidades de uso das terras e melhoramento das mesmas e desde que foi tornado público passou a ser uma referência nacional e mundial para a elaboração de aptidão agrícola em ambientes tropicais úmidos. Passou também a ser referência quando se pretende elaborar planos de manejo que visem o uso racional e sustentável do recurso solo. Este, sendo um componente do meio físico que possui a sua formação quase que totalmente natural ou com influência antrópica, merece cuidados específicos, principalmente no que se refere às práticas de manejo nele adotadas.

Tais cuidados podem ser previamente elaborados por meio da associação de dados coletados em campo – levantamento direto – e representações cartográficas que, partindo de levantamentos indiretos facilitam a aquisição de mais dados, bem como informações acerca das características da superfície terrestre, tais como o relevo, propriedades do solo, uso do solo, disponibilidade hídrica, atividade fotossintética da vegetação entre outras variáveis, das quais pode-se fazer estudos integrados com a finalidade de se obter uma visão geral das potencialidades e limitações do mesmo.

O trabalho com dados espaciais georreferenciados – Geoprocessamento – vem proporcionando uma variedade de ferramentas e possibilidades de relacionamento entre elas para atender às mais diversas necessidades de usuários nas mais complexas e extensas atividades nas quais está envolvido. Dentre elas, cabe destacar o Sistema de Informações Geográficas (SIG) que oferece capacidade de coleta e de armazenamento de dados de diversas fontes, de tratar, de analisar e de representar estas informações em um formato passível de ser compreendido pelos diversos tipos de usuários (SOUZA et al., 1993).

Um SIG tem como principal característica a indexação dos dados pela localização como forma fundamental de organizá-los e tratá-los, estabelecendo a associação entre os dados e o local onde ocorrem. Ele permite explorar a capacidade dos dados para gerar informações por meio de análises espaciais interativas, que oferecem soluções rápidas, eficientes e precisas na solução de problemas relacionados com a distribuição espacial e temporal dos dados. Assim, a integração de dados relacionados ao uso agrícola possui como objetivo obter informações do solo, do relevo, da disponibilidade hídrica e estabelecer usos favoráveis para um maior rendimento das culturas sem levar o recurso solo à degradação.

A classificação da aptidão agrícola das terras, baseada na fertilidade natural do solo e no nível tecnológico que pode ser empregado no mesmo, subsidia a distribuição racional das culturas por relacionar o recurso natural do solo com a produtividade que o mesmo pode proporcionar com determinada cultura e prática de manejo. Ainda pode-se caracterizar o mesmo quanto às correções de caráter químico e físico, as quais podem ser empregadas com a finalidade de amenizar características desfavoráveis como acidez e declividade acentuada.  Com isso, além da produtividade, busca-se também a conservação agroambiental (VALLADARES, et al., 2007).

Mapas de aptidão agrícola das terras fornecem informações de síntese e objetivas que, baseadas em critérios técnico-científicos, podem ser utilizadas tanto no planejamento agrícola (RAMALHO FILHO; BEEK, 1994), como na avaliação de adequação do uso das terras. Isso permite identificar áreas com uso adequado para culturas específicas, práticas de manejo adequadas, intensidade de uso, bem como a manutenção do equilíbrio ambiental.

Segundo Lepsch (2002), embora existam várias definições para o conceito de solo, o mesmo compreende um atributo do meio físico que é formado naturalmente. Ainda de acordo com o Manual Técnico de Pedologia do IBGE (2007) – que traz novas abordagens – a definição que melhor se adapta aos levantamentos pedológicos é a do Soil taxonomy (taxonomia de solos, 1988) e do Soil survey manual (manual de levantamento de solos, 1984) que considera também as influências antrópicas e assim o define:

Solo é a coletividade de indivíduos naturais, na superfície da terra, eventualmente modificado ou mesmo construído pelo homem, contendo matéria orgânica viva e servindo ou sendo capaz de servir à sustentação de plantas ao ar livre. Em sua parte superior, limita-se com o ar atmosférico ou águas rasas. Lateralmente, limita-se gradualmente com rocha consolidada ou parcialmente desintegrada, água profunda ou gelo. O limite inferior é talvez o mais difícil de definir. Mas, o que é reconhecido como solo deve excluir o material que mostre pouco efeito das interações do clima, organismos vivos, material originário e relevo, através do tempo.

Ainda, segundo Lepsch (2002), admitem-se cinco fatores no processo de formação do solo conforme descritos a seguir:

Material de origem: a ação do intemperismo nas rochas depende de seus materiais constituintes, os quais possuem estrutura e composição química e mineralógica definidas que irão influenciar no tempo de formação e composição do solo;

Clima: a precipitação e a temperatura, bem como a frequência e o tempo das mesmas em contato com o substrato geológico regulam a natureza e a velocidade das reações químicas. A disponibilidade de água (chuvas ou em subsuperfície) e sua composição e a temperatura agem acelerando ou retardando as reações químicas e, consequentemente, o intemperismo responsável pelas transformações físico-químicas que agem sobre as rochas;

Relevo: a topografia e a cobertura vegetal regulam a velocidade do escoamento superficial das águas e consequentemente o tempo de permanência da mesma em superfície. Esse processo associado a litologia da área é essencial para o armazenamento de água em subsuperfície e ajuda a caracterizar o ambiente quanto à susceptibilidade de carregamento de minerais e até mesmo erosões no solo. Isto interfere na quantidade de água que infiltra e percola no solo e consequentemente a profundidade do mesmo. Ainda este processo (em tempo suficiente) é essencial para consumação das reações químicas e drenagem do mesmo, impedindo a saturação por determinados componentes;

Micro-organismos: a decomposição da matéria orgânica libera gás carbônico, cuja concentração no solo pode ser até 100 vezes maior que na atmosfera. Isso diminui o pH das águas de infiltração. Alguns minerais, como alumínio, tornam-se solúveis somente em pH ácido, isto é, necessitam desta condição para se desprender de sua rocha de origem. Outros produtos de metabolismo, como ácidos orgânicos secretados por líquens, influenciam também os processos de intemperismo. Ainda, as raízes ao exercerem força mecânica das rochas influenciam na quebra e decomposição das mesmas;

Tempo: variável dependente de outros fatores que controlam o intemperismo, principalmente dos constituintes do material de origem e do clima. Em condições pouco agressivas de intemperismo é necessário um maior tempo de exposição das rochas aos agentes intempéricos para haver um perfil de alteração de solo bem desenvolvido.

2. Da metodologia adotada

Para a determinação das classes de aptidão agrícola das terras foi utilizada a metodologia proposta por Ramalho Filho e Beek (1995). Essa metodologia de trabalho segue orientação original do Soil Survey Manual (Manual de Levantamento de Solos)do United States Department of Agriculture, (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América, 1951) e da Food and Agriculture Organization of the United Nations (Fundo das Nações Unidas para a Organização da Agricultura, 1976).

Para o Brasil a base deste modelo de classificação da aptidão das terras foi desenvolvida inicialmente nos anos 1960, como uma tentativa de classificar o potencial das terras para a agricultura em ambientes tropicais. A primeira aproximação continha muitos conceitos e procedimentos da FAO que serviram também de base à atual estrutura de avaliação das terras. Desde então, ela sofreu várias modificações e desdobramentos durante sua aplicação na interpretação de levantamentos de recursos naturais. Assim, o método é o resultado do trabalho de pesquisadores brasileiros, junto com especialistas da Food and Agriculture Organization of the United Nations – FAO – e representa uma reação à classificação da capacidade de uso das terras, a qual inicialmente havia demonstrado ser inadequada para classificar o potencial de terras em um país como o Brasil, onde, segundo Beek (1978), níveis de tecnologia muito diferentes convivem lado a lado (IBGE, 2007).

Assim, Beek et al.(1978) propuseram modificações no método visando a adaptá-lo para planejamento em longo prazo, conforme Estudo das Perspectivas de Desenvolvimento de Agricultura no Brasil (1975), e a aproximação mais recente – Sistema de avaliação da aptidão agrícola das terras, de Ramalho Filho e Beek, (1995) – é uma avaliação física das terras, baseada nas suas qualidades e em níveis de manejo para diferentes usos da mesma. Nesse método recomenda-se que a avaliação da aptidão agrícola das terras seja baseada em resultados de levantamentos sistemáticos, realizados com base nos vários atributos das terras, como: solos, geomorfologia, clima, vegetação entre outros atributos que possam caracterizar o solo, bem como o seu provável comportamento quando da implantação de determinadas práticas de manejo.

A avaliação da aptidão agrícola das terras baseia-se na comparação das condições oferecidas pelas mesmas e com as exigências de diversos tipos de usos. Trata-se, portanto, de um processo interpretativo que considera informações sobre características de meio físico em especial os solos, e da viabilidade de melhoramento da composição química e física dos mesmos. Assim, o seu desenho metodológico pode compreender três etapas, seguindo o preconizado por Ramalho Filho e Beek (1995):

  • Levantamento e organização de um banco de dados gerando informações a partir das quais se elaboram os mapas básicos (solo, relevo, clima, uso da terra e vegetação);
  • Avaliação das terras com base em tabelas de dados por meio de critérios previamente definidos;
  • Elaboração do mapa final de aptidão agrícola das terras.

O processo de execução destes trabalhos atualmente pode ser viabilizado por meio de técnicas de Sensoriamento Remoto e Geoprocessamento, as quais permitem ainda aprimorar o necessário detalhamento na caracterização das classes de solos e de declividade das terras, bem como a disponibilidade de técnicas de confrontação dos planos de informação, através do cruzamento em Sistemas de Informações Geográficas (SIG).  No presente trabalho esse processo foi realizado tendo com base o mapa de hipsometria (Figura 01); de solos (Figura 02); de declividade (Figura 03) e de cobertura e uso da terra (Figura 04), mediante o cruzamento dos mesmos por meio de geoprocessamento.

O levantamento e a classificação da aptidão agrícola das terras parte da interpretação das potencialidades de uso do solo face às necessidades e limitações para os diversos usos, tais como uso agrícola, uso para pastagem plantada ou cultivada e silvicultura. Procura-se diagnosticar o comportamento das terras para lavouras, nos sistemas de manejo A (baixo nível tecnológico), B (médio nível tecnológico) e C (alto nível tecnológico). Visa conhecer a disponibilidade dos recursos naturais, configurando-se, desse modo, como instrumento fundamental para o estabelecimento do zoneamento agrícola.

As terras sem aptidão para o uso agrícola são classificadas como destinadas à preservação da flora e fauna. Em geral compreendem terrenos fortemente ondulados – declividade maior que 45% – ou solos facilmente erodíveis tais como os Neossolos Quartzarênicos ou ainda áreas eventualmente inundadas tais como fundos de vale e pântanos. Ressalta-se que quando a metodologia faz esse destaque, deixa explícito de que estas áreas possuem extrema fragilidade/limitação de uso, prestando-se somente a esse tipo de uso, que é o preservacionista. Entretanto, não há impedimento, todavia, que outras áreas de elevado potencial agrícola possam ser destinadas também à preservação ambiental. Isso pode acontecer em áreas onde ocorrem Unidades de Conservação de Proteção Integral que, embora possam estar em solos de elevada fertilidade e relevo altamente favorável para uso de máquinas agrícolas, são destinadas exclusivamente à preservação da fauna e da flora.

A adoção de níveis de manejo, no sistema de avaliação da aptidão agrícola das terras, é considerado um procedimento altamente válido, sobretudo em países como o Brasil, onde, numa mesma região, existe uma grande variedade de condições técnicas, socioeconômicas e, consequentemente, diferenciados sistemas de manejo que convivem lado a lado (BENNEMA et al., 1965; RESENDE et al., 1995). Ainda, a partir da indicação de fatores limitantes (baixa fertilidade, excesso de água, falta de oxigênio, suscetibilidade à erosão e impedimento à mecanização), BENNEMA et al. (1965) consideram que o sistema de avaliação da aptidão agrícola tem um caráter dominantemente ecológico, sobretudo no que tange aos seus três primeiros fatores.

Nessa mesma linha, ao versarem sobre o foco da metodologia, Ramalho Filho e Beek (1995), apesar de mencionarem aspectos referentes à relação custo/benefício e tendência econômica em longo prazo, deixam claro de que o objetivo maior do método reside na orientação para práticas de manejo adequadas com vistas à sustentabilidade de uso das terras, subsidiar no planejamento regional e nacional.

Assim, entende-se que a classificação da aptidão agrícola das terras é um processo interpretativo com base nas informações que se tem de uma determinada área. Destaca-se ainda que o seu caráter é efêmero e pode sofrer variações com a evolução tecnológica e a disponibilidade de dados que permitem informações mais precisas. Portanto, entende-se que quanto mais informações se têm acerca do solo, bem como maior nível de detalhamento, mais bem elaborada será a classificação de aptidão agrícola dos mesmos. Ressalta-se ainda que não se trata precisamente de um guia para obtenção do máximo benefício das terras e, sim, de uma orientação de como devem ser utilizados seus recursos no planejamento que vise um desenvolvimento sustentável.

O quadro 01 representa esquematicamente como podem ser interpretados os grupos de aptidão agrícola das terras, considerando o aumento da intensidade de uso e o aumento da intensidade de limitação.

3. Grupos e aptidão agrícola

Compreendem formas de utilização das terras de acordo com a sua aptidão – lavoura, pastagem plantada, silvicultura e/ou pastagem natural. Portanto, trata-se de uma maneira de se identificar o tipo de utilização intensiva mais favorável da terra de acordo com as características do solo, declividade bem como uso atual e compreende inicialmente 6 (seis) grupos quais sejam:

Grupos 1, 2 e 3 – estes, além da identificação para lavouras como tipo de utilização favorável, desempenham a função de representar, no subgrupo, as melhores classes de aptidão das terras indicadas para lavouras, conforme os níveis de manejo.

Grupos 4, 5 e 6 – apenas identificam tipos de utilização (pastagem plantada, silvicultura e/ou pastagem natural e preservação da flora e da fauna, respectivamente), independente da classe de aptidão.

4. Níveis de manejo considerados

Tendo em vista a adoção de práticas agrícolas que estejam ao alcance da maioria dos agricultores, num contexto específico, técnico, social e econômico, são considerados três níveis de manejo, visando diagnosticar o comportamento das terras em diferentes níveis tecnológicos.

Nível de Manejo A – considerado primitivo – é baseado em práticas agrícolas que requerem a adoção de um baixo ou nenhum nível tecnológico, onde não há aplicações de capital para manejo, melhoramento e conservação das condições agrícolas das terras e das lavouras. Assim as práticas agrícolas podem ser desempenhadas basicamente pelo trabalho braçal, podendo ainda ser utilizada alguma tração animal com implementos agrícolas simples.

Nível de Manejo B – considerado pouco desenvolvido – baseia-se em práticas que requerem um nível tecnológico médio, caracterizado por alguma aplicação de capital e de resultados de pesquisas para manejo, melhoramento e conservação das condições agrícolas das terras e das lavouras. As práticas agrícolas estão ainda condicionadas principalmente ao trabalho braçal e à tração animal. Se usada máquina motorizada será para o transporte e beneficiamento da produção.

Nível de Manejo C – considerado desenvolvido – tem como base práticas agrícolas que requerem um alto nível tecnológico, caracterizado pela aplicação intensiva de capital e de resultados de pesquisas para manejo, melhoramento e conservação das condições agrícolas das terras e das lavouras como a aplicação de fertilizantes e corretivos agrícolas. A moto mecanização é usada nas diversas fases da operação agrícola.

Assim as letras A, B ou C, que acompanham os algarismos referentes aos três primeiros grupos – 1, 2 e 3 que indicam lavouras – expressam a aptidão das terras para lavouras em pelo menos um dos níveis de manejo considerados. Cada um destes níveis de manejo pode aparecer em letra MAIÚSCULA – correspondente a APTIDÃO BOA – em letra minúscula – correspondendo à aptidão regular – ou em letra minúscula e entre parênteses – que corresponde a aptidão restrita.

Para os grupos 4 e 5, que se referem aos outros tipos de utilização menos intensivos como pastagem plantada, silvicultura e/ou pastagem natural respectivamente a indicação da aptidão é feita de modo similar, em maiúsculas, minúsculas e minúsculas entre parênteses, utilizando-se as letras P, S e N, que indicam Pastagem, Silvicultura e Pastagem Natural, respectivamente. O grupo 6 (seis) compreende exclusivamente terras destinadas a preservação da fauna e da flora.

O quadro 02 possibilita entender as possibilidades de determinação de subgrupos de aptidão agrícola com base no tipo de utilização por meio de suas diversas formas e manejo e nas classes de aptidão.

5. Subgrupos de aptidão agrícola das terras

Os Subgrupos de Aptidão Agrícola são o resultado conjunto da avaliação da classe de aptidão relacionada com o nível de manejo, indicando o tipo de utilização das terras.

Classe boa: terras sem limitações significativas para a produção sustentada de um determinado tipo de utilização, observando as condições do manejo considerado. Há um mínimo de restrições que não reduzem a produtividade ou os benefícios expressivamente e não aumentam os insumos acima de um nível aceitável. Esta classe é indicada pela letra maiúscula A – se no nível de manejo a – maiúscula B se no nível de manejo b – e maiúscula C se no nível de manejo c.

Classe regular: terras que apresentam limitações moderadas para a produção sustentada de um determinado tipo de utilização, observando as condições demanejo considerado. As limitações reduzem a produtividade ou os benefícios, elevando a necessidade de insumos, de forma a aumentar as vantagens globais a serem obtidas do uso. Ainda que atrativas essas vantagens são sensivelmente inferiores àquelas auferidas das terras de classe boa. Esta classe é indicada pelas letras minúsculas a – se no nível de manejo a; b – se no nível de manejo b e c – se no nível de manejo c.

(Classe restrita): terras que apresentam limitações fortes para a produção sustentada de um determinado tipo de utilização, observando as condições de manejo considerado. Essas limitações reduzem a produtividade ou os benefícios, ou então aumentam os insumos necessários, de tal maneira que os custos só seriam justificados marginalmente. Esta classe não possui restrição no nível de manejo a, somente nos níveis de manejo b e c. É indicada pela presença de pelo menos uma destas duas letras entre parêntese.

Classe inapta: terras que apresentam condições que parecem excluir a produção sustentada do tipo de utilização em questão. Ao contrário das demais, esta classe não é representada por símbolos. Sua representação é feita pela ausência das letras no tipo de utilização considerado.

As classes expressam a aptidão agrícola das terras para um determinado tipo de utilização, com um nível de manejo definido, dentro do subgrupo de aptidão. Elas refletem o grau de intensidade com que as limitações afetam as terras, sendo definidas em termos de graus, referentes aos fatores limitantes mais significativos.

No exemplo 1 abC, o algarismo 1, indicativo do grupo das lavouras, dá preferência e representa a melhor classe de aptidão dos componentes do subgrupo, uma vez que as terras pertencem à classe de aptidão boa no nível de manejo C (grupo 1); classe de aptidão regular, nos níveis de manejo a e b (grupo 2). Em certos casos, o subgrupo refere-se somente a um nível de manejo – 3(c), por exemplo – relacionado a uma única classe de aptidão agrícola.

6. Dos produtos elaborados

Tendo como referência o mapa de solos utilizado, bem como os mapas de declividade e de cobertura e uso do solo foram definidas 11 classes de aptidão agrícola das terras na área do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga. Deste total seis classes possuem alguma aptidão agrícola para lavouras, sendo duas classes com aptidão agrícola boa para lavouras em pelo menos um dos níveis de manejo; duas com aptidão agrícola regular para também pelo menos um dos níveis de manejo e outras duas com aptidão agrícola restrita aos níveis de manejo b e c e somente c. Das cinco classes restantes, três possuem alguma aptidão agrícola para pastagem, uma para silvicultura  e/ou pastagem natural e a última  sendo recomendada apenas para preservação da fauna e da flora, conforme descrito na legenda a seguir.

1aBC => terras com aptidão agrícola regular para lavouras no nível de manejo a; e BOA nos níveis de manejo B e C;

1abC => terras com aptidão agrícola regular para lavouras nos níveis de manejo a e b; e BOA no nível de manejo C;

2abc => terras com aptidão agrícola regular para lavouras nos níveis de manejo a, b e c;

2bc => terras com aptidão agrícola regular para lavouras nos níveis de manejo b e c;

3(bc) => terras com aptidão agrícola regular restrita para lavouras nos níveis de manejo b e c;

3(c) => terras com aptidão agrícola regular restrita para lavouras no nível de manejo c;

4P => terras com aptidão BOA para pastagem plantada;

4p => terras com aptidão regular para pastagem plantada;

5(n) => terras com aptidão restrita para pastagem natural;

5(sn) => terras com aptidão restrita para silvicultura e/ou pastagem natural;

6 => terras sem aptidão agrícola e destinadas à preservação da fauna e da flora.

O mapa de aptidão agrícola das terras é apresentado por meio da Figura 05. Já por meio da Tabela 01 é possível observar a área de abrangência de cada uma em termos absoluto (ha) e relativo (%). Por meio do mapa é possível perceber que as terras com aptidão agrícola boa ou regular se distribuem principalmente nas áreas mais elevadas e planas com o predomínio de Latossolo Vermelho Distrófico. Outras áreas com esse predomínio correspondem às superfícies mais rebaixadas e planas que tendem a acompanhar os canais de drenagem de maior porte.

Já as terras sem aptidão para agricultura e destinadas a ocorrência de pastagens plantadas ou naturais e, principalmente destinadas à preservação da fauna e da flora se distribuem nas zonas de transição entre as superfícies mais elevadas e aquelas mais rebaixadas, em geral com a ocorrência de serras, bem como terrenos amplamente dissecados. São terrenos com o amplo predomínio de solos pouco desenvolvidos, portanto rasos e naturalmente de baixa fertilidade e que, em geral, são inapropriados para práticas agrícolas.

Pelas classes de aptidão agrícola e suas respectivas áreas de ocorrência é possível perceber que pelo menos em 21% da área do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga predominam terras com aptidão agrícola boa nos níveis de manejo B e C. Cerca de 10% possui aptidão agrícola regular em pelo menos um dos níveis de manejo. Outros cerca de 4% possuem aptidão agrícola regular restrita, isto é, terras que, para a agricultura, só podem ser utilizadas nos níveis de manejo b e c. Já em relação às terras com aptidão boa, regular ou restrita para pastagem natural ou plantada compreendem cerca de 8%. Em geral são terrenos planos, mas que possuem solos de baixa fertilidade natural tais como Argissolo Amarelo e Neossolo Regolítico. Em relação às áreas recomendadas para a preservação da fauna e da flora, estas compreendem a maior parte da área do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, cerca de 56% da área total. Essas características resultam, principalmente, das condições de relevo, os quais se apresentam acidentados, formando serras. Tal resultado ratifica a vocação da área do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga para a preservação e atividades relacionadas ao turismo ecológico.

7. Subgrupos de aptidão agrícola das terras

Considerando o estágio do processo de mapeamento, bem como os produtos lá desenvolvidos ressalta-se que os mesmos se encontram na forma de mapas – formato JPEG – e em estrutura vetorial – formato SHP ESRI, disponibilizados no banco de dados da Associação Quilombo Kalunga. Esses arquivos estão adicionados a outros já elaborados podendo ser acessado no Sistema de Informações Geográficas da Associação Quilombo Kalunga.

Referências Bibliográficas

  • IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Manual Técnico de Pedologia. Rio de Janeiro, RJ. 2ª Edição. 2007. 365 p.
  • FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations A Framework For Land Evaluation. Soils Bull. FAO, Rome, 1976.
  • LEPSCH, I. F. Formação e Conservação dos Solos. São Paulo: Oficina de Textos, 2002, 178p.
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